terça-feira, 9 de junho de 2009

Sobre o valor da Depressão




No começo, o bebê é o ambiente e o ambiente é o bebê. Através de um processo complexo (parcialmente compreendido, sobre o qual eu e outros já escrevemos bastante), o bebê separa os objetos, e aí, separa o ambiente do self. Há um estado intermediário em que o objeto com o qual o bebê se relaciona é um objeto subjetivo.

O bebê passa então a ser uma unidade, primeiro em certos momentos e depois durante o tempo todo. Uma das consequências desse novo desenvolvimento é que o bebê passa a ter um interior. Surge, então, um intercâmbio complexo entre aquilo que é dentro e aquilo que é fora, que continua através da vida do indivíduo, constituindo-se na principal relação que ele tem com o mundo. A relação é mais importante até mesmo do que o relacionamento objetal e a gratificação instintual. Esse intercâmbio de mão dupla envolve mecanismos mentais denominados "projeção" e "introjeção". E então muita coisa acontece, realmente muita...

A fonte desse progresso é o processo maturacional inato no indivíduo, que pode ser facilitado pelo ambiente. O ambiente facilitador é necessário, e, se não for bom o suficiente, o processo maturacional se enfraquece ou se interrompe.

Assim, a força e a estrutura do ego tornam-se um fato, e a dependência de um novo indivíduo em relação ao ambiente transforma-se cada vez mais, indo do extremo da dependência absoluta até a independência, embora jamais atinja a independência absoluta.

O desenvolvimento e a instalação da força do ego é a característica básica ou importante que indica saúde. De forma natural, o termo "força do ego" vai adquirindo cada vez mais significado, à medida que a criança amadurece. No início, o ego só tem força devido ao suporte egóico dado pela mãe adaptativa, que durante certo tempo é capaz de se identificar muito intimamente com o seu bebê.

Chega então um período em que a criança se torna uma unidade, torna-se capaz de sentir: EU SOU, tem um interior, é capaz de cavalgar suas tempestades instintuais e também é capaz de conter as pressões e os estressores gerados na realidade psíquica interna. A criança tornou-se capaz de se sentir deprimida. Essa é uma aquisição do crescimento individual.

Nossa visão da depressão está intimimante ligada ao nosso conceito de força do ego, de estabelecimento do self e de descoberta de uma identidade pessoal; é por essa razão que podemos discutir a idéia de que a depressão tem valor. Em psiquiatria clínica, a depressão tem muitas características que a tornam, obviamente, uma descrição de doença, mas sempre, mesmo em distúrbios afetivos severos, a presença do humor depressivo dá alguma base para a crença de que o ego individual não está rompido e pode ser capaz de manter a fortaleza, mesmo que na realidade não chegue a nehum tipo de resolução da guerra interna.

A causa principal do humor deprimido é uma nova experiência de destrutividade e de idéias destrutivas que deseparecem com o amor. As novas experiÊncias precisam de uma reavaliação interna, e é essa reavaliação que encaramos como depressão.

E o que fornece alívio não são os tranquilizantes. Surpreendentemente, uma pessoa pode sair fortalecida, mais estável e mais sábia de uma depressão, se compararmos seu estado no início dela.


(D.W.Winnicott, em "Tudo começa em casa")

Artista: Sir Thomas Lawrence

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